sexta-feira, 9 de março de 2012

Abstinência de Existência

O menino agonizava. Agonizava de dor no chão.

No chão estirado, estilhaçado e aos pedaços ele estava; ele se encontrava.

Ele precisava usar “só mais uma vez”– ele dizia, mas mesmo assim ninguém podia dar para ele; pois todos sabiam que se ele usasse mais uma vez seria o seu fim. Ou melhor, seria o seu início de novo. E ele voltaria a usar tudo de novo. Usaria de novo todo o emboloro de sua vida. Sua vida estragada, arruinada estava. Estava infestada de ratos. Os ratos pulavam sobre ele e corroíam suas vestes. As vestes, aos farrapos, estavam sujas, imundas de tanta rua, de tanta penúria escura. A escuridão dominava sua mente, sua mente que estava sedente por uma picada, por uma injetada, formalmente falando. Falar?! Ele já não conseguia mais. Ele só conseguia gritar!

Só conseguia espumar de dor, de rancor por si mesmo.

O rancor era tão amargo que contaminava todo o seu ser. O seu ser já não era mais nada. E ser nada, não é ser “ser”. O ser dele pedia a morte, pedia um gole de qualquer coisa que fizesse parar a dor. A dor insuportável que ele sentia, que ele sofria. Ele sofria também com o pulo dos ratos. Queria matar um por um daqueles animais fétidos. Queria se despir, fluir e sumir. Juntando, assim, as últimas forças que tinha, o menino foi levantando e foi tirando os seus trapos. Enquanto isso, os ratos corriam assustados, apavorados com aquele horror, com aquele terror. Ou seja, nem os animais mais desprezados o queriam. Queriam dormir sobre ele, pois ele não dormia; ou se dormia, dormia como peixe, com os olhos abertos. Com os olhos incertos, dispersos. Com os olhos corroídos pelo tempo. Pelo tempo mal aproveitado que vivera até hoje. Pelo tempo que ele quis perder, que ele não quis mais ver.

Então, em um súbito ele cai e começa a ter uma convulsão. Seus olhos saltam pelo ar, e o cheiro de baratas se faz mais presente. Assim ele começa a espumar; a babar e a tremer por inteiro. Começa a enfrentar o processo de morte que talvez fosse a própria sorte que ele tanto desejou. Mas agora ele não sabia mais se queria isso. Enquanto isso, apenas um só lado seu tremia, convulsionava. O outro lado de seu corpo estava consciente e cientemente observava toda aquela cena horrorosa com grande pavor. Com grande temor pela morte. Naquele instante ele se arrependeu de ter desejado tanto ir para o limbo do esquecimento. Se arrependeu de ter desejado o inferno, certo.

O menino diante de tamanho conflito só conseguia chorar, gritar e se contorcer por inteiro de dor. E quando ele já perto estava de ter um colapso; de ter um relapso de memória e não se lembrar de mais nada... A porta começa a estremecer, assim como ele.

Então ele desesperado, gelado, chora alto e grita por socorro! E feito um sopro... A porta se abre!

2 comentários:

  1. Não sei... acho que não gostei. Mas não liga pra mim não, eu amei todos os outros.

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  2. hahahhahahaahha! xD
    é justo.. seria querer demais que uma ilustre leitora como vc fosse gostar de tdas as minhas palavrinhas.
    esse daqui é bem diferente dos outros. esse é frio e grosso, e talvez vc não tenha gostado dessa agonia, ou talvez da forma que eu reproduzi isso. espero melhorar a cada dia, a fim de transmitir melhores e mais reais sensações.

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